Opinião | O futuro da pecuária no Brasil: por que a pecuária extensiva deve ceder espaço à agricultura (e à pecuária intensiva)

A tese

A pecuária extensiva — baseada em baixíssima lotação por hectare e grandes áreas de pastagem — tende a perder espaço no Brasil. Aos poucos, ela cede terreno à agricultura e a modelos de pecuária semintensiva e intensiva, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), o pastejo rotacionado e o confinamento.
Salvo nas regiões cuja aptidão natural é exclusivamente pecuária, o movimento é irreversível. E o motivo é simples: eficiência por hectare. Num país de custos logísticos elevados, mercados exigentes e necessidade de produzir mais sem abrir novas áreas, a lógica é clara — produzir mais por hectare é inevitável.


O problema da pecuária extensiva

Hoje, o Brasil ainda opera com médias muito baixas de produtividade. Segundo a Embrapa, a taxa histórica gira em torno de 1 UA/ha — uma unidade animal por hectare.
Em áreas de Cerrado com pastagens nativas ou pouco manejadas, o índice pode despencar para 0,1 a 0,3 UA/ha, o que significa que dez hectares sustentam o equivalente a apenas uma cabeça de gado.
Na prática, isso é o retrato da ineficiência: muito espaço, pouca carne e pouca renda.

Essa baixa produtividade se agrava porque boa parte das pastagens brasileiras apresenta vigor vegetativo baixo ou médio, sinal de degradação. Segundo o MapBiomas, 87,1% das pastagens convertidas para agricultura entre 2000 e 2023 eram de baixo ou médio vigor — ou seja, terras exauridas.
Esses pastos cansados exigem mais herbicidas, correções constantes e acabam presos num círculo vicioso de custo alto e baixa resposta produtiva.
Como resultado, a pecuária extensiva se torna um modelo de baixo retorno econômico e alto impacto ambiental.


O que ganha espaço: intensificação, integração e confinamento

Quando há correção de solo, adubação e manejo técnico, a produtividade muda de patamar. Ensaios da Embrapa mostram lotações de 1,0 a 1,6 UA/ha em sistemas rotacionados, e valores ainda maiores em áreas irrigadas.
Isso multiplica a produção de arrobas por hectare e melhora o uso da terra.

Nos sistemas ILP e ILPF, os ganhos vão além do zootécnico. Árvores proporcionam sombreamento, conforto térmico e fixação de carbono, enquanto a lavoura contribui para a ciclagem de nutrientes e recuperação do solo.
Estudos recentes da Embrapa indicam que o balanço de carbono nesses sistemas pode até neutralizar as emissões de metano entérico — prova de que intensificar não é degradar, mas produzir mais com menor pegada ambiental.

O confinamento também se consolida como vetor de modernização: o Brasil deve atingir cerca de 8,5 milhões de cabeças confinadas em 2025, alta de 7% em relação a 2024. O modelo oferece melhor controle zootécnico, padronização de carcaça e uso racional de área, tornando-se alternativa viável em regiões com infraestrutura e mercado.


Políticas públicas e crédito: a engrenagem da mudança

A intensificação sustentável deixou de ser apenas uma escolha técnica — virou diretriz de política pública.
O Plano ABC+ (2020-2030), do Ministério da Agricultura, é o eixo central dessa transição: incentiva a recuperação de pastagens degradadas, ILPF e práticas de baixa emissão.
No crédito rural, linhas como o RenovAgro (BNDES) financiam projetos de conversão de pastagens com juros favorecidos, reforçando o incentivo à eficiência e sustentabilidade.
O Plano Safra 2025/26 também traz esse viés: o foco passa a ser a qualidade da pastagem como condicionante do crédito, conectando produtividade a sustentabilidade.


E o argumento ambiental?

A intensificação bem conduzida não é inimiga do ambiente, é aliada.
Ao elevar a produção por hectare, reduz-se a pressão por desmatamento e a emissão por quilo de carne. Relatórios da FAO e da OECD mostram que sistemas mais eficientes emitem menos gases por unidade de produto, graças a melhor dieta, menor idade de abate e maior taxa de desfrute.
Nesse cenário, o Brasil tem tudo para se tornar líder mundial em carne de baixa emissão, se escalar as práticas previstas no Plano ABC+.


Comparativo internacional

Nos países com pecuária intensiva — como EUA e Austrália —, a produção por hectare e o ciclo de engorda são muito superiores aos do Brasil.
Enquanto aqui ainda predominam médias próximas de 1 UA/ha, esses países atingem várias unidades animais por hectare em sistemas melhorados.
Isso mostra o tamanho da oportunidade: há muito espaço para o Brasil ganhar eficiência e competitividade sem ampliar área.


Onde a pecuária extensiva ainda faz sentido

A pecuária extensiva continuará relevante em áreas cuja aptidão é genuinamente pecuária — solos arenosos, rasos, regiões com restrição hídrica ou logística precária.
Nesses locais, o importante é respeitar a capacidade de suporte do pasto, que pode ser ≤ 0,3 UA/ha, e adotar boas práticas: ajuste de lotação, suplementação, sombra e rotação de piquetes.
Mesmo no extensivo, é possível evoluir para uma pecuária mais equilibrada e menos degradante.


Conclusão

Se quisermos produzir mais carne, preservar biomas e ganhar competitividade, a pecuária extensiva, como conhecemos, não fecha a conta.
O futuro está na pecuária semintensiva e intensiva, na integração lavoura-pecuária-floresta e na terminação em confinamento onde fizer sentido econômico.
Com crédito direcionado, assistência técnica e manejo de precisão, é possível substituir área por eficiência, reduzindo herbicidas e elevando produtividade.

Em suma:
👉 Menos hectares, mais arrobas, menor pegada — e mais renda.
Esse é o rumo inevitável da nova pecuária brasileira.

Por:

Deyvid Rocha Brito – Engenheiro Agrônomo · Mestre em Produção Vegetal · Consultor Ambiental · Ponto Rural Global.

“Eficiência é o novo pasto fértil da pecuária brasileira.”

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